“A Ilha dos Silvos” marca o regresso do actor romeno Vlad Ivanov às ordens de um dos maiores nomes do cinema do leste.

Como todo o cinema de golpes, a operação quer-se rápida, indolor e concisa. É assim que descrevemos a conversa relâmpago com Vlad Ivanov, um dos atores mais reconhecíveis do Novo Cinema Romeno, que entrou na sala de imprensa do Festival de Cannes para trocar algumas palavras com os jornalistas, isto horas depois da estreia mundial de “A Ilha dos Silvos” (“La Gomera” / “The Whistlers”), de Corneliu Porumboiu, filme que protagoniza.

Ivanov captou a nossa atenção por um simples pormenor: as suas personagens são normalmente caracterizadas como homens durões, antagónicos e verdadeiramente massivos. Porém, à nossa frente encontrava-se alguém cansado, possivelmente com uma noite mal dormida neste imenso festival, mas sempre cordial e cujo sorriso nunca desabrochava.

Em “A Ilha dos Silvos”, maioritariamente filmado na ilha de La Gomera, nas Canárias, o ator interpreta um polícia corrupto pronto para integrar um golpe que reúne um alfabeto particular à conta de assobios e femme fatales dotadas de inigualáveis métodos de sedução. Percorrendo o vasto território hollywoodiano e as curvas do noir, o filme assume-se com a postura ofensiva de um realizador crucial de um movimento cinematográfico que anseia renegar e, no seu caminho, um ator preparado para novos desafios a condizer com o seu método.

Falamos com Vlad Ivanov sobre esses riscos, provas e a sua apetência pelos assobios. Em troca, pediu-nos um favor: cumprimentar o sul-coreano Bong Joon-ho (“Parasite“), com quem trabalhou em “Snowpiercer: O Expresso do Amanhã”.

Este filme ajudou-o, de certa maneira, a melhorar a sua capacidade de assobiar? [risos]

Tivemos um trabalho árduo em produzir esses mesmos assobios, desde aprender a sua “linguagem” até à sua reprodução. Mas tudo isso foi um processo anterior ao filme, não tivemos tempo para improvisar durante a rodagem.

Ou seja, a pesquisa foi intensa? Como aperfeiçoou esse assobio e a comunicação através dele?

Absolutamente. Enquanto filmávamos em “La Gomera”, ouvia constantemente os habitantes a assobiarem e a produzirem esses diferentes tipos de assobio. Não foi apenas uma pesquisa anterior, mas a própria experiência durante as filmagens levou a que o meu assobio fosse, como dizes, aperfeiçoado. [risos]

Corneliu Porumboiu dirige os actores Vlad Ivanov e Rodica Lazar em “The Whistlers”

Considera-se fluente nessa língua?

Quando disse que aprendi a “linguagem” não estava literalmente a referir que aprendi a linguagem na sua totalidade, mas o geral da questão sonora e da sua utilização. A pesquisa feita foi de apenas algumas semanas, não um curso intensivo de uma língua que perdura há anos. Contudo, facto curioso: quando estávamos em “La Gomera”, numa esplanada, assobiei “mais uma cerveja” e automaticamente o empregado, espantado, dirigiu-se a mim e perguntou-me se queria realmente a cerveja. Não estavam acostumados com o facto de um estrangeiro conhecer o sistema de assobios. Obviamente que respondi que era um ator e estavamos na ilha a fazer um filme sobre o assobio. Ele ficou orgulhoso.

Fale-me do seu trabalho com o Corneliu Porumboiu. O que o fez voltar a voltar a colaborar com ele?

Não trabalhava com o Corneliu desde “Politist, Adjectiv”, há 10 anos, por isso foi bom regressar à sua direção. O seu cinema agrada-me, tem uma forma extraordinária de contar uma história e particularmente este agradou-me imenso. Para além disso, Corneliu é um realizador que gosta de trabalhar com um certo tipo de atores. Nesse sentido, um filme dele torna-se numa experiência desafiante para qualquer profissional. Mas enquanto freelancer, que é realmente aquilo que sou, se não gostar do guião simplesmente não integro o projeto. No caso de “A Ilha dos Silvos” foi isso mesmo, o guião. Fiquei verdadeiramente fascinado. Adorei desde o primeiro momento.

O realizador sempre esteve presente na construção das vossas personagens?

Sim. Corneliu é um tipo de realizador que constantemente coordena os seus atores. Em “A Ilha dos Silvos”, o casting demorou cerca de um ano a ser fechado, logo tivemos tempo para nos organizar, trocar ideias e tornar todo esse processo de alguma favorável ao meu tipo de atuação. Ao meu território.

Deu espaço para improvisações? O Vlad tem por hábito improvisar nos seus papéis?

Não, não.

Corneliu foi, em certa parte, fundador do Novo Cinema Romeno, e você, a cara mais reconhecível desse mesmo movimento. Nos últimos tempos, notou-se que tem quebrado a barreira desse cinema e aposta mesmo em grandes produções como o “Snowpiercer” de Bong Joon-ho.

Voltando novamente à tua pergunta sobre a minha entrada neste projeto, uma das razões pela qual aceitei protagonizar “A Ilha dos Silvos” foi o facto de Corneliu ter sido durante anos associado como um dos fundadores desse chamado Novo Cinema Romeno, e que agora está a pronto a afastar-se dessa assinatura estética. Isso nota-se neste filme. E da mesma maneira que Corneliu ficou ligado a essa frente, eu também. Por isso decidi afastar-me e procurar novas linguagens cinematográficas ao longo destes anos.

Até porque notamos em A Ilha dos Silvos uma maior apetência pelo humor.

Diria, intelectualmente divertido.

Ontem à noite [em Cannes], após a premiere da “A Ilha dos Silvos”, os primeiros artigos falavam que este era um tipo de filme que pedia um remake em Hollywood.

A sério? Não sabia. Talvez me voltem a escolher para o protagonizar. [risos]

E aceitaria trabalhar em Hollywood?

Claro que sim! Basta dizerem que eu vou.

Snowpiercer (Bong Joon-ho, 2013)

Porque é que grande parte das suas personagens são vilões, durões ou capangas? É a limitação das propostas de trabalho ou porque escolhe esse tipo de personagens por conforto?

Não, julgo que isso está relacionado com os realizadores e os argumentistas que olham para mim e pensam que já encontraram o seu “vilão”. De certa forma, olham para mim num mau sentido. [risos]

Então, facilmente daria o recado noutro registo, como a comédia? Aliás, em “A Ilha dos Silvos” há um foco nessa vertente.

Claro, eu comecei no teatro, logo habituei-me à versatilidade.

Teatro ou cinema?

Difícil de escolher. Não conseguiria viver sem eles. Preciso da energia do palco, daquela relação entre atores e o público no teatro. Amo essa ligação. No geral, penso que um ator para ser completo hoje em dia necessita do teatro e não apenas ficar restringido ao cinema e à televisão.

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