“Sem romances escandalosos, as biografias de cantores de rock seriam inúteis”

Frase essa que poderia colar como etiqueta às vivências materializadas de Elton John em “Rocketman”, o filme que segue a tradição industrializada de “Bohemian Rhapsody” no universo das biopics musicais. Mas não é. A citação integra um outro filme que em Portugal partilha o cartaz com a produção hollywoodesca protagonizada por Taron Egerton: “Leto”, do russo “maldito” Kirill Serebrennikov.

Estreado na 71ª edição do Festival de Cannes, “Leto” (“Verão”), assumiu-se como uma lufada de ar fresco nesse subgénero cada vez mais datado -a cinebiografia -, no preciso momento em que injetou na sua narrativa de ascensão uma realidade paralela que se aproximava à repressão vivida por estas personagens numa Leningrado sob a sombra do sovietismo. Obviamente que esse efeito meta não é de todo uma novidade, poucas biopics usufruíram desse processo criativo para se afastar na linearidade da sua narração. Relembro, sobretudo, a personagem criada no momento [La Gueule] em “Gainsbourg: La Vie Héroïque”, de Joann Sfar, como um desejo de criar uma persona alternativa daquela estampada sobre os códigos românticos do Cinema. Um desejo que apimenta o filme para além da sua geringonça visual, respeitando a natureza de culto envolto da figura.

Em “Rocketman”, de Dexter Flechter, o mesmo dispositivo é replicado, visto que Taron Egerton sob o disfarce de um excêntrico Elton John, tem que se desconstruir perante uma platéia improvisada enquanto recorre ao mais básico engenho narrativo: o flashback. Pelo meio ingressa-se o universo reconhecível da figura, mas sempre em tom biográfico, nunca saindo da dimensão da homenagem, enquanto que Gainsbourg, o culto seguia pela mesma e pela realidade alternada que fora criada desde então, tudo para condensar uma análise-tese para com a vida referida.

Em “Leto”, tais realidades que disfarçam o seu teor de biografia convencional, servem sobretudo para instrumentalizar uma política de emoção. O que sentem aqueles jovens presos a um nefasto medo pelo ocidente? A opressão ideologia pelo qual são diariamente submetidos? A poesia instrumentalizada dentro de conceito de rock que não é rock, mas assumida como rock? Tudo isto para demonstrar que Kirill Serebrennikov fez um filme que se opõe aos códigos ditatoriais do biopic musical, mas que ao mesmo tempo fá-lo entregando o mesmo. Porque nem todas as vidas devem ser iguais umas às outras, “Rocketman” falha por isso mesmo: o de não se conseguir distinguir dos demais.

Deixe um comentário

Outras leituras