Não é com “Shazam!” que o pós-modernismo no Universo Cinematográfico da DC é inaugurado. Para isso é preciso recuar até aos (não tão longínquos) “tempos negros” da marca, mais concretamente a 2016 com Batman V Superman: Dawn of Justice”, onde Zack Snyder já colocara um dos seus heróis em constante contexto com o mundo que vivemos. Bastava olhar para os “falsos-noticiários” produzidos para fins dramáticos, as reflexões impostas por tais e os comentários que choviam como torrentes sobre a supremacia de uma das figuras de prestígio deste Universo – o Super-Homem.

Mas é com o infame Snyder e o alter-ego de Clark Kent que chegamos a este “Shazam!”, onde o seu construído ecossistema suporta todos os heróis até então apresentados, olhando para estes com uma distância própria de um espectador. Billy Batson (Asher Angel) é esse espectador, um órfão que por coincidência coexiste nesse universo povoado de heróis e vilões e que, sem prever, integrará parte desta mesma legião.

Criado em 1940, o anteriormente apelidado de Capitão Marvel (não é difícil perceber o porquê da sua mudança de nome), Shazam! surgiu numa época de ouro dos comics, espelhando esse fascínio de milhares que porventura sonhavam encarnar nos corpos dos seus ídolos fictícios. Não é por acaso que esta personagem detém similaridades evidentes com o super-herói mais popular dos quadrinhos, endereçando uma atitude algo meta para com o seu inserido panorama. O alter-ego de Batson faz a sua primeira aparição cinematográfica em 1941, num seriado à imagem de outros congéneres, que no entanto transponham essa fronteira, das páginas aos ecrãs. Nesse sentido, são 78 anos nos que separam dessa incursão protagonizada por Tom Tyler com esta aposta da DC / Warner, que em certo sentido traça um novo rumo para este espólio na indústria atual.

Com James Wan a assumir o controlo criativo do franchise (fez o estrondoso êxito com “Aquaman”), confia em David F. Sandberg, “saidinho” das produções de terror Lights Out e “Annabelle: Creation”, para prestar serviço neste episódio acima de tudo colorido e venturado em nostalgia mercantil. Não é por nada que as referências da sua estrutura narrativa são tomadas como óbvias e garantidas em determinadas cenas (“Big” é o seu vangloriado medalhão), o filme tende em não esconder isso, o que deixa a perder qualquer exercício para com o espectador.

Infelizmente, e repescando o dito pós-modernismo no primeiro parágrafo (aqui estamos nós a jogar com questões meta também), essa virtude é diversas vezes abandonada para se instalar na memória cinéfila das audiências, trazendo a nostalgia como cúmplice da demanda do entretenimento. É uma tendência que J.J. Abrams encontrou como sofisticação de marketing no seu “Super 8” e hoje se expande, quer no pequeno (“Stranger Things”) ou grande ecrã (“Star Wars: Force Awaken”, “Ready Player One”, “It). “Shazam!” não foge a esses vícios, orquestrando uma narrativa e uma atmosfera de um produto PG-13 digno dos anos 80, onde os pequenos laivos de terror estão no limite da sua auto-censura (Sandberg tem alguns motivos de júbilo).

E essa imposição de um conforto referencial frente à vontade de transgredir o subgénero, é o que torna “Shazam!” num exemplar de pouco fôlego, por mea culpa e ao mesmo tempo por culpa da saturação que se vive neste tipo de produções. Por um lado, é uma fórmula vencedora que a DC, que diversas vezes “engole” pó da Marvel/Disney, encontrou como registo a seguir.

Dirão as más línguas que é o mais “Marvel” dos filmes da DC, pautando o seu humor e carregando nos seus tradicionais elementos de um produto de família (moralidades mil no nosso horizonte), sendo isso um sinónimo de sucesso entre o grande público. Contudo, convém afirmar que Zachary Levi, enquanto herói acidental, é uma aposta ganha.

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