Há aqui um gesto amorável por parte do realizador Filipe Martins: a utilização do Cinema como veículo de preservação da memória, seja ela afetiva ou, como neste caso, um fruto do quotidiano. Segundo este, Carlos, um sem-abrigo toxicodependente, que mendiga nos parques de estacionamento de um supermercado, era uma imagem presente nos seus dias. Junto à margem do Douro, muitos habitantes demonstravam a sua empatia a este constante “forasteiro” que dormitava num antigo expositor de automóveis, a sua “casa de vidro” que iria converter-se no signo imposto pelo título – “Casa de Vidro”.
A curta de Filipe Martins joga pelas regras do docudrama português, encenando uma realidade próxima a dos envolvidos, e através dessa, emana um subtil simbolismo apresentado na jornada deste homem e no recolher ao seu “aquário” pessoal. A projeção de um refúgio erguido pela fragilidade (quebradiça) das suas paredes, a casa de vidro foi um “lar” improvisado, para mais tarde cair no esquecimento, na mesma altura que Carlos faleceu (durante a pós-produção). A demolição destes quatro cantos representa não só um novo começo para aquela comunidade (a queda de um símbolo arquitectónico), mas o fim de um homem que deixará saudades aos poucos que o tinham como certo nas suas rotinas diárias. Existe uma atitude de admiração e ao mesmo tempo de condescendência para com esta trágica figura. O filme apoia-se no seu carácter e rodopia na construção do seu ecossistema.
Não será certamente a curta que irá desbravar as limitações hoje associadas a anos e anos de prática docudramática no nosso panorama, mas é certo que deparamos aqui um modesto exercício que cresceu para um filme pessoal e demarcado pela subtil humanização.

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