Em 2015, o vídeo da “birra” de Ruben Östlund tornou-se viral. O desapontamento pela ausência do seu “Force Majeure” entre os nomeados ao Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira foi alvo de chacota, mas o realizador já pode olhar para trás e rir da situação, a Palma de Ouro “caiu” nas suas mãos. E agora?
“The Square” declarou-se como o grande triunfante da noite glamorosa do Croisette, o conquistador de uma Competição que, no geral, decepcionou tudo e a todos. Segundo as más línguas, a qualidade desta Selecção derivou do interesse de Thierry Frémaux, delegado-geral do festival, em promover o seu diário “Sélection Officielle” que fora lançado nas bancas francesas, deixando assim, pouca dedicação ao alinhamento da ‘verdadeira’ Competição Oficial. Nela notou-se uma aposta cada vez mais nos mesmos nomes do famoso “tapete vermelho”, a fascinação pelo artista e não pela sua obra, e uma escassez significativa do cinema norte-americano, aquela que fora sempre vista como a grande conquista da dinastia Frémaux.
Entretanto, um dos filmes maiores da montra, “120 Battement par Minute”, de Robin Campillo, não saiu de “mãos vazias” deste certame. O Grande Prémio de Júri condiz tão bem, e segundo consta, Pedro Almodóvar emocionou-se com este activismo da comunidade LGBT e dos seropositivos pelos seus direitos de vida. Às vezes o cinema é isso … emoções, e acima de tudo, estes prémios demonstraram mais sentimento que, propriamente, imparcialidade. Notou-se assim, uma grande diferença entre os seleccionados e as escolhas dos jornalistas e críticos.
Mas este júri fez História no festival ao atribuir o prémio de realização a Sofia Coppola, a segunda mulher a vencer tal distinção, 56 anos depois de Yuliya Solntseva, com o filme “Chronicle of Flaming Years”. A filha do cineasta de “The Godfather” e “Apocalypse Now”, resultou no melhor que esta readaptação de “The Beguiled“ tinha para oferecer, um filme vazio cobardemente a fazer oposição feminina com a versão de ’71. Nesta perspectiva, os valores técnicos sobrepõem-se ao anoréctico do enredo e da falta de ambição das personagens. Enquanto que no original era perceptível uma tensão entre as figuras de Clint Eastwood e Geraldine Page, no trabalho de Coppola as encarnações de Colin Farrell e Nicole Kidman a operarem como figuras inaptas de tragédia e de suas representações políticas.

A vitória da realização remeteu-nos a outro “fantasma”, a atribuição do prémio máximo do festival a uma mulher, cuja primeira e última vez aconteceu em 1993, com “The Piano” da australiana Jane Campion. Mesmo sob o desejo de Jessica Chastain, parte do júri, em ver mais mulheres a competir para a Palma, a verdade é que nem uma das candidatas apresentou-nos qualidades devidas para a distinção. Sofia Coppola poderá ter sido a melhor da “turma”, visto que Naomi Kawase, uma das “favoritas” do festival, embarcou com uma obra de ideias demasiado presas ao meloso e à falta de objectividade, para além Lynne Ramsay, que nos apresentou um ensaio vazio de violência e, sobretudo, um filme incompleto.
Falando nesta última, o pior de todo o Festival, e inacreditavelmente distinguida com dois prémios, o de argumento, o qual partilhou com “The Killing of a Sacred Deer”, do grego Yorgos Lanthimos, um exemplo mais consciente da sua violência visual e psicológica, e o de Melhor Actor, Joaquin Phoenix a roubar as hipóteses de triunfo a Robert Pattinson na obra dos irmãos Safdie, visto como o favorito à categoria.
Contudo, o trabalho do russo Andrey Zvyagintsev, “Loveless”, exibido no primeiro dia do Festival, não foi esquecido pelo Júri [Prémio Especial de Júri]. O retrato de uma humanidade cada vez mais longe de afectos e a dominância da tecnologia no nosso quotidiano fundida com uma realização ímpar e milimetricamente pensada pelo realizador do anterior, o muito bem-sucedido “Leviathan”, faz “refém” o paladar da trupe liderada por Almodóvar. Mas aí, também a instalação de Ruben Östlund, não esquecer o seu grande feito. O homem que destroçou a “maldição” Haneke, que infelizmente, o seu “best-of” não contou com nenhuma premiação na mais invejável mostra cinematográfica do ano.

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