A esta altura, perguntamos sinceramente até quando terminará a dita trilogia dos Amantes. É que mesmo sob essa desculpa, Philippe Garrel não tem rigorosamente mais nada para nos dizer. É uma triste realidade, mas o seu novo filme “L’Amant d’un jour” (“Amante por um Dia”) é a resposta às suas limitações, quer criativas, quer, acima de tudo, ideológicas. “La Jalousie” (2013) levou-nos a crer que essa mesma barreira criativa era possível existir na carreira do autor, enquanto que “L’Ombre des femmes” (2015), que representava um refrescante sopro, ficou-se pelo impasse ideológico.

Este “L’Amant’” sofre dos dois males: primeiro pela falta de personalidade, visto que voltamos às cores monocromáticas, à edição angustiante (onde cada plano não tem a sua necessária expiração) e aos casais rompidos pelo adultério. Quanto ao segundo ponto, a ideologia de um burguês do arco-da-velha que discursa liberalmente uma espécie de poligamia secreta, pois, tudo contado no feminino para não sofrer com eventuais acusações de misoginia. Nesses termos, Garrel parece engraçar com a causa feminista, o direito das mulheres “perseguirem” as suas fantasias sexuais, os seus desejos instantâneos pela luxúria, o que mostra ser um avanço curioso frente à glorificação sentimentalista de “L’Ombre des femmes” (a confundir sensibilidade com feminismo).

Mas “L’ Amant’” é mesmo assim uma pretensão, uma máscara na qual Garrel se esconde, de forma a escapar aos seus fantasmas, os quais que de alguma forma o alcançam. Assim, somos confrontados com um terceiro ato completamente previsível, “garrelianamente” falando. Afinal, a libertação sexual era uma fraude, pois o homem torna-se um elemento em sofrimento sem razão (por incentivo seu) e a mulher cai nas “boas graças” da praça pública.

Fácil ceder-se a reacções primitivas e de pura misoginia por aqui. Está no nosso sangue! Como está no sangue de Garrel. Se o objectivo era uma comédia sobre dignidades traídas pelo adultério, se seguirmos por esse prisma, então este novo filme é capaz de resultar. Existem realizadores que nunca deveriam filmar um filme por ano: o prolífico não é sinónimo de qualidade e Garrel prova isso, sendo um autor que vai sobrevivendo à custa do seu estatuto. Nesse caso, que se lixe a politica de autores.

Deixe um comentário

Outras leituras