Zeus”, a primeira longa-metragem de Paulo Filipe Monteiro, apresenta-nos a história real de um escritor ascendido a Presidente da República, que passado dois anos de mandato vira as costas ao máximo cargo para viver no anonimato numa Argélia colonial. Esta é a biografia de Manuel Teixeira Gomes, um homem, actualmente, esquecido da memória dos portugueses, que encontra nova vida na interpretação de Sinde Filipe. Falei com o veterano actor, um dos mais queridos da sua arte, demonstrando o quanto sabe sobre esta desafiante personagem.

O que lhe interessou em Manuel Teixeira Gomes?

Manuel Teixeira Gomes interessou-me por vários fatores, como cidadão, exemplar devo dizer, como diplomata, como presidente, mas sobretudo pelo seu lado de escritor. Esse seu lado é grande, pelo que deve ser lido, e irá ser lido.

Mas atualmente a obra de Teixeira Gomes encontra-se um “pouco” esquecida.

Não, muito esquecida, é por isso que este filme é importante. Para trazer à memória dos portugueses esta personalidade tão rica e de grande relevância literária.

Fez pesquisa sobre a personalidade ao integrar o elenco de “Zeus”?

Obviamente que fiz uma pesquisa sobre a personagem. Contudo, devo dizer que já tinha conhecido desta importante figura, mas foi durante a pesquisa e a sua encarnação que tentei descobrir mais e mais sobre Manuel Teixeira Gomes. Tentei impregnar a personagem, espero ter feito justiça.

Ao longo da rodagem, descobriu algo de novo em Manuel Teixeira Gomes que não havia encontrado durante o seu processo de pesquisa?

Não lhe consigo dizer, tenho a noção de que as biografias que li fora devidamente esclarecedoras e clarificadoras quanto à sua personalidade. Não senti, de todo, que ao longo filme tenha feito algumas importantes descobertas. Julgo que não tenho acrescentado muito sobre a sua figura.

Sinde Filipe a ser entrevistado por Hugo Gomes na Cinemateca Portuguesa / Foto.: Mafalda Martins

O período que Manuel Teixeira Gomes integra, é um período esquecido entre os portugueses. Até mesmo nos manuais de História. Acha importante explorar no cinema esta subestimada época? Visto que exploramos em demasia o período salazarista.

Da mesma forma como referi a figura de Teixeira Gomes, este filme também tem o dever de trazer à memória dos portugueses esta fatia de História pouco falada, os primeiros passos da República em Portugal. E claro, Manuel Teixeira Gomes é uma personagem, que em muitos aspetos, precisa de ser redescoberta e revalorizada nos dias de hoje. Precisamos tirá-lo da sombra.

Manuel Teixeira Gomes foi um homem dividido entre o seu lado artístico – a escrita – com a sua política. Qual destes lados vingou-se na nossa História? Segundo a sua opinião.

Como escritor. Ele quando esteve na presidência não escreveu muito, aliás ser Presidente sobrepôs-se bastante à escrita. Foi como se fizesse uma pausa nesta sua vertente artística, felizmente foram só dois anos. Porque a política não o invalidou de ser o grande escritor, pelo qual deve ser reconhecido.

Ele sempre foi um escritor, acima de político, mesmo na sua fase de diplomata, Teixeira Gomes não desistiu de escrever. Apenas parou temporariamente essa sua arte durante o seu cargo presidencial.

Novos projetos?

Apenas teatro, foi trabalhar numa peça que fora feita por Villaret há muitos anos, “Esta Noite Choveu Prata”.

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