Numa certa entrevista, Steven Spielberg comparou esta “onda” de filmes de super-heróis com o fenómeno do western que dominava bilheteiras há décadas atrás (e abundância era “coisa” que o valha). Produtos replicados e lançados sistematicamente, que só poucos conseguiram realmente enfrentar o “maior inimigo de todos” – o tempo – e no caso destes meta-humanos, ainda estaremos vivos até surgir o determinante período em que caiam em desuso. Para tal acontecer, é preciso existir um desinteresse por parte do público, um factor crucial que se dará com o primeiro “crash” de uma das majors, o primeiro flop financeiro para ser mais concreto.
Enquanto vivemos nesse tempo de “vacas gordas“, vamos espreitar este “Doutor Estranho”, o mais recente tomo da franchise Marvel Cinematic Universe, pelo qual foi lhe encarregue a missão de salvar uma saga que parece sofrer com uma modelização crónica. Tirando um ou outro, a Marvel tem pontuado com uma máquina industrial oleada, e como recentemente Joss Whedon afirmou em entrevista, questionado sobre o embate do estúdio com a sua rival DC, a grande proeza deste negócio encontra-se na sua narrativa, intacta desde o primeiro capítulo e completamente despida de qualquer transgressão estilística (relembramos a saída de Edgar Wright por divergências artísticas em “Ant-Man”).
Enquanto, Zack Snyder, e companhia, tentam fazer um “treat” mais visual do outro lado do campo, o produtor executivo Kevin Feige tenta preencher a sua Marvel com os mais marcados dispositivos narrativos, como também apostando forte na concepção das suas personagens. Doutor Estranho surge no tempo em que o visual torna-se sobretudo num bem essencial e necessitado neste mesmo universo, e a suas trips mágicas e dimensionais funcionam como um regalo aos olhos, mesmo que, para o espectador mais relembrado, nada disto é absolutamente original. Nota-se por exemplo, os túneis alucinogénicos de um “2001: An Space Odyssey” (clássica referência do metafísico no cinema), como a desconstrução de cidades a dever muito a “Inception: A Origem”, de Christopher Nolan, ou seja, todos estes impressionáveis conjuntos de efeitos visuais, que consistem em formar o mundo espiritual diversas vezes referido, são de uma imaginação pobre.
Essa pobreza torna-se ainda mais visível no argumento. Ora vejamos, sabemos que o Dr. Stephen Strange é um egocêntrico, um arrogante com uma vida perfeita, que a certa altura, em consequências de um acidente, todo o seu mundo “cai“. Fica então dependente da caridade de outros, e para sair desta mesma situação procura ajuda, nem que para isso siga para os lugares mais remotos do Mundo. Nessa sua peregrinação, dá de “caras” com uma legião de magos e feiticeiros, a partir daqui arranca outra jornada pessoal – a aprendizagem de forças que nem o próprio compreende. O nosso herói acaba por aprender uma lição que se torna útil para o desfecho do clímax. É o moralismo típico Disney, mas não só, existe muita reciclagem aqui. Tirando o assunto de esoterismo pagão, este “Doctor Strange” é uma versão upgrade do primeiro “Iron Man”, o tal filme realizado por Jon Favreau que lançou a saga bilionária, assim como Robert Downey Jr. à ribalta estrelar. Parece que a Marvel já não tem volta a dar na sua “originalidade“, esgotou a fórmula e o que sobra são os mesmos truques de sempre, o humor, por exemplo, continua como a sua melhor arma. Mas até quando isso se durará?
Todavia, este “Doutor Estranho” aguenta-se “nas canelas“, a razão desse mesmo apoio tem como nome Benedict Cumberbatch, que adapta-se à sua personagem com o carisma necessário. Ele é o tour de force de toda esta demanda heróica influenciado por um outro universo sob o selo Disney, “Star Wars”. Mas nem o actor é capaz de salvar este Mundo da iminente destruição, apenas retardá-lo. Basta agora, esperar o que o tempo dirá a este novo, e vistoso, capítulo de feitos heróicos. Será que Steven Spielberg tem razão? Por enquanto, ficamos a aguardar com o discurso do nosso mais recente, assim como esquecível (prato do dia para a Marvel), vilão de serviço (desta vez calhou na rifa a Mads Mikkelsen), na mente. O Tempo é o maior inimigo de todos, ele destrói tudo. Não, meus senhores, não estou a confundir com o “Irreversible”, de Gaspar Noé.

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