Chan-Wook Park (“Oldboy: Velho Amigo”) apropria-se do romance literário da britânica Sarah Waters para incutir um conto de erotismo e de técnica luxuriosa onde, novamente, a “scissor sister” volta a ter a sua relevância enquanto ligação terna entre um casal (sim, algo que nos faz suspirar por “A Vida de Adéle”).

No centro deste jogo de enganos, traições, ciúmes e artimanhas, digno de qualquer thriller hitchcockiano, “The Handmaiden” é uma espécie de “origami”, machucado, recortado, dobrado, aspirando uma forma que não é a sua, mas que no final o resultado é de pura beleza de criação. Uma beleza presente na direção segura e estilística de Park, que prolonga os “fracassos” omitidos na sua produção norte-americana, “Stoker”, ou na sedução captada pelos corpos nus, pelas sugestões sexuais e corporais que as nossas personagens transmitem com toda a satisfação.

O humor pautado e subliminar enche os frames desta narrativa contada em três vozes, duas perspetivas que se complementam a um só olhar (terceiro ato), por entre twists e quebra-cabeças emocionais. É certo que podemos acusar de plasticidade Chan-Wook Park frente ao verdadeiro sentido da intriga. Como uma decorada “casa de bonecas”, é essa conexão com o olhar do espectador que “The Handmaiden” adquire a sua atmosférica façanha; é negro e colorido quanto basta. Sedutor e traiçoeiro como ninguém, uma clara alusão à perversão e repreensão sexual na cultura japonesa que cria, ou apenas “educa” fetichistas de imaginações infinitas.

Com belezas ditadas de Kim-Tae-ri e da estrela sul-coreana Kim Min-hee (“Right Now, Wrong Then”), Chan-Wook Park recria uma das melhores obras de teor erótico dos últimos anos; corajoso ao apresentar em plenas terras da Riviera Francesa um filme que contrai um portento fascínio pela luxúria e pelo obsessivo prazer.

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