Assim chegamos a “A Família Bélier” (“La Famille Bélier”), o mais recente “crowd pleaser” importado da França, que, com os seus ares de graça, conquistou o seu país de origem com uma ternura descritiva, tendo sido várias vezes comparado ao fenómeno “Amélie”. Neste filme de Eric Lartigau, seguimos a jovem Paula (Louane Emera), que vive com a sua família numa casa no meio rural. Porém, há uma particularidade: ela é a única do seu seio familiar que não é surda-muda, o que lhe confere uma responsabilidade quase imperativa de cuidar dos seus entes queridos durante os obstáculos do quotidiano. Mas Paula descobre um talento oculto durante a sua aula de coro. Talento esse que a poderá levar a lugares nunca imaginados, mas, por enquanto, coloca a protagonista num dilema problemático.

A temática da linguagem gestual adquire uma especialidade nesta comédia familiar, que, com a exceção desse termo, se aventura pelos lugares comuns do género. Aliás, tudo é feito de propósito para seduzir o espectador mais mundano, aquele que só descansa ao vislumbrar arquétipos hollywoodianos em produções europeias. O resultado de “A Família Bélier é um filme isento de estilo, ousadia (mesmo com piadas arrojadas de cariz sexual ou spoof do coming-of-age) e costurado por uma realização minada de tiques televisivos. Tudo soa previsível, uma previsibilidade que se torna cansativa ao fim de 10 minutos e nos leva a mais clichês genéricos.

No entanto, como já referi, é a representação da deficiência auditiva que atribui um toque de singularidade ao filme, ao mesmo tempo que conduz toda a ênfase dramática para os caminhos certos. Nesse aspecto, é de louvar o empenho dos atores Karin Viard e François Damiens ao manusear a linguagem gestual de forma credível para os seus respectivos papéis. Contudo, só o estreante Luca Gelberg, que interpreta o filho mais novo, Quentin Bélier, é o real surdo-mudo deste retrato. A surdez serve aqui como uma “faca de dois gumes“; as suas personagens são induzidas a comportarem-se como figuras dependentes da sociedade e, ao mesmo tempo, como marginalizados—não pela sociedade, mas por si próprios. É como se os surdos-mudos fossem enfants terribles por natureza, e não seres humanos capazes dos mesmos feitos dos “outros”.

Mudando de assunto, nada contra o sucesso popular desta obra guiada pelas tendências da época. Aliás, a música é novamente “o prato” para talentos pessoais (até parece que o mundo se resume a isso), envolvida numa musicalidade que ficará no ouvido logo após o visionamento, quase obrigando-nos a gostar desta experiência que remete para o mais vulgar dos espectáculos, e acreditem, nem sequer é dos mais eficazes. Vale mais salientar que, como produto do género vindo da França, “Intouchables”, continua a detentar o seu estado de graça, e pelo andar da coisa, continuará a fazê-lo por muitos anos.

PS – “Je Vole“, a música interpretada por Louane Emera numa das sequências-clímax do filme, é uma canção de Michel Sardou que remete à carta de suicídio de um jovem para os pais. No filme, a letra foi alterada para servir como uma despedida de casa por parte de uma filha para os seus pais.

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