Devido à exaustão de imagem é quase impossível, nos dias de hoje, sentirmos pavor com a figura do vampiro, muito mais com a mítica personagem de Drácula, conde “marginalizado” por Deus e abraçado pelas trevas, imortalizado num conto de Bram Stoker, que por sua vez é baseada numa das mais infames personalidades da nossa História, o Príncipe Vlad, o Empalador. Com cerca de 100 anos de cinema, esse dito “príncipe das trevas” converteu-se numa estrela emprestada, não apenas reduzida à temática do terror, como também aos diferentes géneros cinematográficos. Porém uma das incursões mais célebres (descartando a versão não autorizada que transfigurou e muito o cinema dos anos 20, “Nosferatu” de Murnau) foi obviamente a clássica versão de 1931, de Tod Browning com o ator húngaro Bela Lugosi a encarnar o “rei vampiro”, o papel que dificilmente conseguiu fugir.
Porém, “Bela Lugosi is Dead” e o vampiro, massacrado pelas novas tendências, converteu-se numa imagem exclusivamente hollywoodesca, a prova disso é este reboot ao mito folclórico da Transilvânia, que não é nada mais, nada menos que um case study aos modelos cinematográficos de sucesso. Em “Dracula Untold”, a primeira promessa de um eventual franchise por parte da Universal Pictures, somos induzidos a um arquétipo de super-heróis na sua génese, pelo menos é o que a obra de Gary Shore evidencia através de um formato algo similar. Aliás Drácula, o trágico “demónio” que aterrorizou gerações passadas é agora “esfaqueado” com um dever heróico num conto que não respeita as suas origens assim como a história verdadeira de que serviu de base a lenda.
Se bem que isto poderia resumir a uma visão alternativa quanto à mesma história de sempre, a verdade é que como filme, este “‘Untold” nos reserva as manhas da indústria atual. São cerca de uma e meia para recontar o já recalcado, numa narrativa justa e limitada a lugares-comuns que o público-alvo está acostumado, mas que parece não cansado à sua sobre-exposição, e por referências (mínimas) que os “fãs” da figura em questão irão reconhecer. Depois é o excesso dos CGI, um factor que torna a já limitada narrativa ainda mais limitada e sobretudo, incoerente. Para além das más lições de História e de maniqueísmos evidentes (deitando por terra qualquer carácter ambíguo, nessa liga Francis Ford Coppola saiu-se vitorioso) tendo como foro etnográfico, “Dracula Untold” “brinda-nos” com acting preguiçoso em geral (sem referir a nula aptidão de personagens).
Se é “isto” um possível começo de uma saga com promessas de reunir todo um espólio monstruoso da Universal Classics (domínio público é a palavra-chave), mais valiam estar “sossegadinhos”. “Dracula Untold” está mais próximo do último Homem-Aranha do que propriamente da memória de Bela Lugosi. “Never forget who I am” (“Nunca esquecer quem sou”), pois, para conselhos inúteis o filme segue o tempo todo.

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