A segunda longa metragem conjunta dos irmãos Safdie (Ben e Joshua) é composta por um cinema espontâneo, cru e neorrealista nas ruas de Nova Iorque, pavoneando-se como um conto de miserabilidade humana, mas com um olhar crescente para o individualismo pessoal. “Heaven Knows What” é inspirado num relato de vida, ainda por publicar, da sua protagonista, Arielle Holmes, uma toxicodependente e sem-abrigo que graças a esta obra cinematográfica tem sido reconhecida e declarada como uma estrela para o futuro. E não é para menos. A agora actriz é incisiva no seu empenho autobiográfico, declarando-se um figura simbiótica com o paradoxismo e bizarria do seu Mundo, o qual se encontra repleto de marginais e é “adocicado” por um atípico romance que transcreve um “amor-cão” ácido para os próprios parâmetros do romantismo cinematográfico (o actor Caleb Landry Jones é prova dessa bestialidade amorosa).

Ausente de crítica e de esboço social, sem moralidades nem compaixão com estas “criaturas” sob vestes humanas, a narrativa é impetuosa e vibrante como poucas, originando cumplicidades com uma câmara irrequieta e interveniente, sempre acompanhada por uma banda sonora minimalista [Paul Grimstad & Ariel Pink] que tão bem acentua as almas das suas próprias personagens. Os Safdie conseguiram aqui o efeito naturalista e recorrente a um cinema urbano, selvagem e psicologicamente violento, preenchido por figura enigmáticas, “aprisionadas” a um habitat complexo, mas quase incompreensível para os demais, onde tudo se resume a um campo de batalha entre a vida e a morte.

É cinema independente norte-americano no seu melhor estado, envolvido sob um sopro de ar fresco que revela assim a esperada emancipação da dupla de realizadores no panorama cinematográfico depois de “Get some Rosemary” (2009). A construção de uma nova linguagem? Talvez sim, talvez não, até porque não existe uma evidente ruptura estética, apenas a compreensão e a progressão dos demais antecedentes, mais do que um mero híbrido da veia documental. Mas por enquanto, podemos apreciar uma experiência vertiginosa nesses termos, liderada por uma protagonista que revive o seu falso quotidiano uma enésima vez.

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