Muito do cinema que defendo, sobretudo no documentário, é aquele que transcende a mera exposição de realidade. Um cinema que se assume como um espaço de ideias e temáticas através de narrativas ou outros dispositivos performativos / estéticos que emocionem, que geram burburinhos de naturezas diversas nos nossos “eus” ou provoquem a simples reflexão ou inquietação. Registos crus e passivos daquilo que é observado é outra “conversa” (mas acreditam nada de observacional que Wiseman tanto impõe como sua assinatura), é outra ‘coisa’ que hesito em aclamar como o meu cinema. Quando isso acontece, tal como neste aclamado “Feng Ai” (“’Til Madness Do Us Part”), do igualmente e mundialmente reconhecido Wang Bing, o documentário ou que deseja fazer dele perde a sua essência, converte-se numa experiência árida, o quanto preguiçosa e até quase punitiva … foulcaultianamente punitiva.
A premissa é, em teoria, irresistível: uma incursão num hospital psiquiátrico chinês, expondo tanto a desumanidade das condições daquele lugar quanto os recantos mais sombrios da loucura humana, individualizada e espacialidade em cada “louco”. Mas, na prática, Wang Bing toma o papel de um purista e rígido peão do cinema verité, recusando qualquer manipulação ou embelezamento … melhor para ele e para nós! Contudo este seu ato, em teoria, de rebeldia, rapidamente se revela na sua maior fraqueza. As quatro horas de duração são-nos apresentado como um “prato cru” de registos pouco decupado e de montagem aos mínimos como procedimento de conservação à sua naturalidade e crueza, o que à partida nos evidencia uma ausência de organização narrativa. Esse tratamento transforma a experiência num choque frontal entre realizador e o espectador, explorando extenuantemente a miséria humana, o qual se arrasta penosamente sem oferecer novos horizontes, sem ritmo, sem fluidez.

Um cineasta verdadeiramente artesão sabe que o cinema exige escolhas difíceis: cortar, comprimir, eliminar o supérfluo. É nessa capacidade de transmutar o caos em algo coeso e impactante que separa os realizadores comuns dos grandes mestres. Infelizmente, em “Feng Ai”, Wang Bing abdica desse processo. O que resta é um registo repetitivo, indigesto, que mais parece um espelho dos atuais reality shows televisivos — onde a repetição do quotidiano se transforma numa exploração oca. O que fazer com quatro horas de material bruto? Construir uma narrativa que prenda o espectador ou levá-lo à exaustão para com o seu “objeto de estudo”? Wang Bing escolhe a última opção, e ao invés de ampliar a mensagem, a sufoca numa espécie “porno-miséria”, daqueles vampirismos que os colombianos Luis Ospina e Carlos Mayolo, apercebendo da tendência e dos seus erros de principiantes, troçavam e destroçaram no seu “Agarra Pueblo” (1977). Wang Bing, por outro lado, não faz intenções de se autor-satirizar, este seu “Travelling de Kapo” prolongando (e muito prolongado), alia-se aos delírios destes hóspedes de sanatório para que este lhe confidenciassem os seus mundos – a porca e miserável realidade quotidiana naquela enclausura.
Em boas mãos, “Feng Ai” poderia ser um documento urgente e poderoso, capaz de emocionar sem cair em truques televisivos, mas Wang Bing alicerçado a uma determinada escola de pensamento cinematográfico (bem agraciado à crítica corrente) anula o seu potencial. Ao abdicar de moldar o material bruto, entrega-nos um produto que não é mais do que um eco da desumanidade que pretende criticar. Este filme, apresentado no Festival de Veneza (e mais tarde no Doclisboa com sala cheia), tinha tudo para ser um grito de revolta. Só que nos calhou na rifa um espectáculo penoso e sem forma, uma experiência desumanizadora e até abjeta quanto a realidade que pretende expor. Wang Bing é um vampiro do miserabilismo do século XXI.

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