Desde os tempos da Grécia Antiga que se ouvem histórias edipianas sobre filhos que matavam os seus país para poderem amar “a solo” as suas mães. Estes gestos macabros a sangue frio, revelavam uma certa psicologia freudiana em que nos remetia à primeira paixão de qualquer homem, a sua mãe. Amor materno por vezes conduz a loucuras, ciúmes obsessivos, entre outros, mas no outro lado da moeda, às mais delicadas cartas de amor, e uma delas é Anni Felici, uma autobiografia de Daniele Luchetti, em que próprio associa a sua paixão pelo cinema com a descobertas dos afectos para com a sua mãe. E é talvez sob esse modelo de declaração amorosa que a obra acentua um grau de sensibilidade elevada.

Um realizador como Luchetti habituado em retratar laços familiares no cinema, não tem medo de sujar as suas mãos no que requer a expor a vida privada e a relação por vezes complicada com o seu marido na tela, ao mesmo tempo que branqueia e dignifica a mesma. Em Anni Felici são muitos os elementos que povoam a narrativa: adultério, homossexualidade, descobertas a foro íntimo, amores estivais, separação, contudo tudo é induzido numa arte performativa que em simultâneo conjuga com a poesia visual. Este é um filme que Daniele Luchetti prova uma vez mais que não sabe fazer telenovela ou tragédia grega, mas sim requisitar fragmentos memoriais e inseri-los numa narrativa calorosa e terna.

Depois disso tudo é um conjunto de actores que possui o cargo de preencher tais memórias, com Kim Rossi Stuart Micaela Ramazzotti a compor um dos romances mais conturbados e ao mesmo tempo carnais dos últimos anos no cinema.

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