O já muitas vezes apelidado de “prodígio de Tarantino” (devido ao trabalho que exerceu como assistente de câmara em inúmeros filmes do realizador nos anos 90), Ziad Doueiri adapta o polémico best-seller de Yasmina Khadra para o grande ecrã, convertendo a jornada de um homem às profundezas de uma sociedade regida pela religião fervorosa e pelo ódio entre culturas num thriller intimista que apela pertinentes questões e que nos outorga respostas através da emoção.
A terceira longa-metragem de Doueiri enquanto realizador-a-solo (marcando 14 anos desde a sua aclamada estreia com “West Beirute”, abordando a Guerra Civil do Líbano, a nacionalidade do realizador, nos anos 70), é um filme arranca sob um signo esperançoso, retratando a cidade israelita Tel Aviv como um último reduto utópico para israelitas e palestinos. Mas com o desenrolar de um enredo que nos alude ao thriller mainstream, “L’Attentat” nos atenta (gosto do “trocadilho”!) num vazio existencialista enquanto o espectador em cumplicidade com o protagonista “abraça” o derrotismo que surge após um “choque” com um “mundo subliminar”. Ali Suliman (“Paradise Now”) desempenha assim um médico cirurgião palestino que renega as suas raízes para sobreviver numa sociedade cada vez mais no limiar, mas que é forçado a invoca-las para entender com que razões levaram a sua amada mulher a cometer um atentado suicida que vitimou uma dezena de israelitas. Uma verdade crua e dura que integra como “fraca” na alma deste homem atormentado, deixado ao abandono e marginalizado pelos dois lados da sociedade que habita. A utopia é só uma miragem.
O olhar de Doueiri não é denunciante, nem sequer engendra o panfletarismo ou usufrui do tema para requisitar maniqueísmo. É um quadro neutral, porém, forte nas suas convicções e na sua mostra, iniciando debates mas nunca terminá-los com opiniões definidas. “L’Attentat” joga com a sugestão das ocorrências e dos actos, mas no fundo o filme funciona como um potente drama sobre um homem em busca da consciência. Uma obra corajosa que encontra-se de momento proibida de ser exibido em grande parte dos países árabes incluindo a de origem do realizador, Líbano.

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