O que poderemos extrair em todo este “My Best Friend’s Birthday” é uma determinada e peculiar cena em que o próprio Quentin Tarantino (sob a persona de Clarence, um radialista que imaginou o suicídio aos 3 anos de idade) abre a porta do seu quarto e num vibrante panorama fazemos uma tour pelos posters de filmes pendurados nas suas quatro paredes. Este foi o convite que precisávamos para entrar num universo, uma fantasia que irá nos acompanhar durante 30 anos, a dita cinefilia tarantinesca. 

Mas antes de chegarmos às ficções pulp e aos cães raivosos em golpes falhados, fazemos uma paragem por este “My Best Friend’s Birthday”, hoje convertido na curta inaugural do seu cinema (isto sabendo que o detentor de tal título, “Love Birds in Bondage” em ‘83, fora alegadamente destruído), um feito que o próprio recusa mencionar. De muito baixo orçamento e concebido através de ajuda de terceiros e favores em cadeia, Tarantino recorreu a uma mirabolante teia de ideias tecidas desde o início da sua consciência cinematográfica, ou seja, referências aqui, ou referências acolá, esta intriga de uma festa de anos que resulta numa catástrofe em fora de plano é uma citação ao Cinema com o qual cresceu ou que segue atentamente (existe por estes recantos uma admiração por um certo cinema nova-iorquino vindo das escolas, como Spike Lee e o seu “She’s Gotta Have It”). 

Hoje restam apenas 36 minutos de filme, o que gerou durante anos um mito de que grande parte deste se perdera num incêndio, porém, o argumentista e produtor Roger Avary (responsável pela fotografia de “My Best Friend’s Birthday”) revelou que a sua não-conclusão foi derivada a inexistências orçamentais. Mas o que aprendemos com este suposto fracasso, é que a partir deste nasceu a sede de filmar de Tarantino (e o resto é História). Vale a pena referir que em 1993, o realizador reciclaria a ideia deste aniversário de amigos para escrever “True Romance”, de Tony Scott.

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