Como já dizia Jack Nicholson em “The Departed” (Martin Scorsese, 2006): “When I was your age they would say we can become cops, or criminals. Today, what I’m saying to you is this: when you’re facing a loaded gun, what’s the difference?” — conselho que parece fazer sentido perante um filme como este, “Street Kings”, onde polícias e criminosos pouco ou nada se distinguem. Uma mistela cada vez mais usual para expor a denúncia dessa equação binária diluída. Contudo, muitos já seguiram estas pisadas: a quebra do fascínio pela violência, cons uns pózinhos de suspeita às instituições, e pelo consequente vigilantismo dos anos 70, somada ao choque frontal de 11/09/01, levou a América, e, neste caso, Hollywood, a dissecar o seu próprio sistema de combate à criminalidade com um olhar bem menos ingénuo.
É o auscultar das “cicatrizes interiores”, a ambiguidade como veste para a concepção de “novos heróis”… ou, mais precisamente, para a desconstrução dos velhos e do próprio conceito. Antoine Fuqua e Ron Shelton, com “Training Day” e “Dark Blue”, respectivamente, são dois exemplares fundamentais desse sub-subgénero do novo século, e curiosamente ambos sob a pena de David Ayer, o argumentista agora emancipado a realizador, o novo agente na reformulação do policial em grande tela. Pena que, em “Street Kings”, a persistência de um estilo não o resgate das garras do corriqueiro; até porque a voz feroz depende de outras oralidades, e o realizador não se apresenta como transgressor nesse campo. Ayer serviu-se como escritor destas parábolas citadinas, a sua visão guarda uma evidente umbilicalidade com a agressividade de Fuqua.
Contudo, nessa separação da gema e da clara, vemos uma espécie de copycat fuquiano (como se isso fosse “a thing”), e “Street Kings”, prova de fogo com Keanu Reeves sempre a rosnar na pele do policia corrupto do episódio, não aguenta nas canelas dessa pretendida afirmação de estética a prometer ser sua. Infelizmente, o resultado está à vista: o espectador não contemplará nada de novo no horizonte; tudo o que é corrupção e a suas teias reconhecem-se de ginjeiros, e a televisão já se contagiou com essas maleitas.
A partir daqui, é evidente que Ayer deseja sol no asfalto (elenco de luxo, que para além do anterior Neo, temos Forest Whitaker pós-Óscar, Chris Evans, Hugh Laurie e Naomie Harris); veremos se no futuro conseguirá captar um registo por detrás dos ecrãs, mas, até à data de “Street Kings”, não necessitava propriamente de provar ser capaz de orquestrar o subgénero que ele próprio ajudou a promover — faltava-lhe, sim, o seu ilustrador. Série B com aquele bafo de videoclube… não é má ideia, mas não traduz a ambição que se entrevia.
“How can you shoot a guy taking a dump? I mean, seriously, that’s sacred. That’s like shooting a man in church.”

Deixe um comentário