Da maneira como “A Estrada da Revolução” inicia – escombros, sangue, gritos e uma assombração de um atentado – fazia-se prever mais uma cadeia “choque” tão fiel às manchetes sobre o estado atual do Médio Oriente e Norte de África dos mais variados noticiários. Face a tais imagens, o espectador ocidental facilmente se sente intrigado, revoltado por momentos, mas tal dissipa-se com o conforto das suas habitações e pela distância social ou simplesmente o afastamento geográfico de tais cenários desoladores e sanguinários. Para o jornalista Tiago Carrascos e ou seus parceiros, João Fontes (repórter de imagem) e João Henriques (fotógrafo), o noticiário não era o suficiente. Vendo mais que somente rotinas passageiras para o indivíduo comum, o que o trio presencia é um movimento de tamanha relevância, não apenas para o Médio Oriente e Norte de África, mas também para o resto do Mundo. A Primavera Árabe, a manifestação contagiante do ecoar dos ideais que os portugueses parecem “esquecer” – o Povo é quem mais ordena – imposta nem que seja por via do sacrifício e do sangue derramado.

Curiosos em testemunhar de perto este fenómeno, os três portugueses seguem então na derradeira rota da Turquia até à Tunísia, passando por verdadeiros “campos de batalha” como a Síria e o Líbano, através de uma demanda por vias de transportes terrestres, com o intuito de se aproximarem à verdadeira essência da Primavera Árabe: as pessoas. Depois da exibição de violência, sublinhando a atmosfera pesada e infernal que se vive nestes “indesejados” cantos terrestres, “A Estrada da Revolução” parte numa outra perspectiva, a visão partilhada por estes três jornalistas; as pessoas, os seus ideais e convicções, a luta através de cânticos, o uso da tecnologia como o escape da censura ditada por regimes e por fim as histórias por detrás desses novos ventos que se avizinham.

Será pura coincidência a queda sucessiva dos diferentes líderes de tais nações? “A Estrada da Revolução” segue tal viagem por fragmentos, e ao contrário dos documentários de formato televisivo não cede à definição, apenas às imagens que explicitam testemunhos de coragem. E é nessa coragem, e a semelhança que encontramos em todas essas histórias, o elo que liga povos diferentes mas igualmente oprimidos. Cada um sob a sua abordagem, umas mais difíceis de aceitar pela cultura ocidental que outras, como por exemplo o abdicar dos próprios filhos (mártires) em prol da queda de governos antagonistas. Porém, aceitando ou não, existe algo de sentido neste retrato para o indivíduo português, mesmo que as situações não se comparem (ou 8 ou 80), Portugal necessitava da sua própria Primavera, o retorno dos velhos ideais do 25 de abril que nunca se concretizaram por completo. Basta só assistir a luta quase interminável de um povo em atingir o seu próprio conceito de liberdade para depois testemunhar uma aceitação conformista de uma austeridade que revela a passos num novo género de Ditadura.

Deixando por agora este intervalo crónico nacionalista de jornal e regressando ao documentário. “A Estrada da Revolução” separa após os primeiros minutos dos lugares-comuns e da generalização utilizada nos telejornais e avança para um retrato humanista e íntimo a um dos movimentos que tem de tudo para se tornar num dos mais importantes do século XXI. Porém, a sua fraqueza como obra cinematográfica é que o filme de Dânia Lucas (narrado pelo ator Ivo Canelas) foi um fruto extraído de cerca de 200 horas de material gravado, sendo que a profundidade desejada não é devidamente atingida, prezando-se ainda assim o facto de um filme destes estar nas nossas salas, havendo aqui algo de muito atual e revolucionário. Não é coincidência a estreia nacional de “A Estrada da Revolução”, o nosso país precisa acordar, nem que seja seguir os exemplos (porém não os devemos seguir à letra) dos outros!

Nota de contexto histórico: este texto, e olhando agora com retrospectiva, foi escrito no calor do seu tempo. Portugal lidava com austeridade, Troika e um primeiro-ministro – Pedro Passos Coelho – que perante ao amontado de miserabilidade e desespero português, sugeriu “emigração”. Portanto, pedimos desculpa pelo obsoleto que texto se tornou, desejando que não seja interpretado como um apelo aos populismos nem linchamentos populares.

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