E assim chegamos ao esperado segundo volume da pomposa promessa de Lars Von Trier, “a epopeia sexual de uma mulher, desde a sua infância até à sua meia-idade“, sem com isso envergar temas aludidos ao título, ou seja, sem definir a ninfomania como uma causa nem sequer um culpa de uma sociedade imoral e corrompida pela luxúria. Contudo, perante tal cenário social, o autor dinamarquês, acompanhado pela sua bagagem referencial e uma atriz disposta a moldar às suas fantasias (Charlotte Gainsbourg), não evita nem minimiza em momento algum a provocação, sendo este o trunfo do primeiro e agora integrado no segundo e derradeiro volume. Porém, existe algo que não “bate” de todo certo neste episódico conjunto de devaneios sexuais, a descoberta do exotismo erótico na frieza nórdica.

Primeiro, semelhante ao processo de contar uma anedota (a primeira vez é memorável, a segunda parece incomodar), depois de um início dinâmico e, confesso, divertido por entre teorias da conspiração e “colagens” de abordagem sexual a outros assuntos de importância cultural e social, “Nymphomaniac” dá lugar ao cansaço, ao forjar de referências e por fim à ambição do realizador em construir uma obra cada vez mais lírica que visual. O interesse mantém-se com o desenrolar da narrativa, mas as “tacadas” dadas por Von Trier perderam a frescura e, pior, a irreverência mais fluida e versátil com o próprio enredo. Tudo isto leva a elaboração de um puzzle entusiasmante de montar mas que resulta num todo decepcionante em termos cinematográficos. Nisto vem um arrastar, o imperar temas e opiniões (uma defesa quase constrangedora dos pedófilos, algo insuportável de refletir), e onde Von Trier esteve por momentos tão perto da genialidade insana como também na pura e ruinosa ejaculação intelectual.

O que assistimos assim é um retrato disposto de engenhoso de uma sociedade saturada por sexo, onde a temática soa como a raiz quadrada de todos os elementos expostos no nosso quotidiano, e que no seu todo resulta de uma desequilibrada visão e intolerância cinematográfica, onde não faltam as promessas de uma descida exclusiva ao inferno sexual que não são cumpridas e a consolidação entre o melhor do cinema deste autor (referências exaustivas da sua obra anterior “Antichrist”, talvez o fim de tudo) e a pior da sua técnica operativa (existem planos e sequências imperdoáveis na industria cinematográfica que demonstram por exemplo uma falta de cuidado na posição e utilização da luz).

Por outras palavras, em “Nymphomaniac” o percurso (o Volume 1) é mais cativante e libertino que a sua própria conclusão (Volume 2), que se impõe como uma liberdade artística utilizada para júbilo pessoal e onde Von Trier foi traído pela sua forma, fechando com Chave de Bronze a sua, agora, completa trilogia da depressão.

Vale a pena ainda salientar o desempenho algo sinistro de Jamie Bell como e todos os seus adereços, naquele que poderá ser visto como o capítulo mais intenso, arrojado e magistral de toda esta “bíblia” sexual.

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