O que mais me surpreendeu na nova obra do realizador / argumentista Noah Baumbach foi a forma como entrega uma jornada pessoal sem com isso cair nos atributos modelados do cinema generalista com direção para o grande público. É óbvio que lhe será imputado a ausência de emoção e de ênfase dramáticas que tanto agrada às audiências, mas logo após o seu desfecho é difícil não ficar comovido e pessoalmente concretizado em assistir a um filme que, ainda que longe da luz do mercado mainstream, propaga uma mensagem tão importante para os dias de hoje como aquela que “Frances Ha” invoca.

Como já dizia Almada Negreiros, “os jovens do meu tempo estão menos informados e mais adultos, os jovens de hoje estão menos adultos e com melhores informações“. Com isso saliento que o filme de Noah Baumbach remete-nos a uma das características da sociedade atual que é a maturação tardia e o atraso da independência pessoal, tudo isto espelhado na homónima personagem principal de Greta Gerwig, que já havia trabalhado com o realizador no anterior “Greenberg”. Personagem essa, uma jovem conformista, irresponsável e imatura, que subestima a vida e pouco faz para conseguir se vingar nela. É uma protagonista difícil de se simpatizar, pois a sua distorcida visão do mundo e o seu inocente egoísmo (por vezes a falta dele) comprometem tal cumplicidade com o espectador. Contudo, são as variadas desilusões que atravessará que por fim irão fazê-la compreender que a sua vida precisa urgentemente de um rumo.

As mudanças acontecem perante nós, porém sem efeitos bacocos ou nada que impere o espectador de reconhecer tais atos. Tudo isto para chegarmos ao portento pessoal das personagens, um desenvolvimento que se exibe e demonstra com toda a eficácia. De certa forma o percurso e o destino de Frances Ha conseguiram comover aqui o vosso escriba, que interagiu com o artificialismo e o caos em pessoa que a protagonista apresenta inicialmente até por fim se tornar … numa adulta, não em idade ou corpo, mas na forma de encarar e se relacionar com o mundo que a rodeia.

Tirando isso, “Frances Ha” é um vibrante e sempre criativo retrato narrativo tão estranho que chega mesmo a entranhar-se, Noah Baumbach num tom nouvelle vague (a irrequietude da personagem de Gerwig tem tanto de “Bande à part” de Godard como de “Adieu Philippine” de Rozier) ao sistema indie mumblecore dos EUA. Entre as sequências revitalizantes e jovens que a obra contém, uma delas desperta em nós um entusiasmo contagiante: a imagem da protagonista pulando e andando coreograficamente ao som de Modern Love, de David Bowie (referência óbvia a “Mauvais Sang”, de Leos Carax), sincronizada com uma fotografia monocromática digna de um dos melhores exemplares de Woody Allen, “Manhattan”. 

Com uma excelente protagonista – Greta Gerwig é pura luz – “France Ha” é um dos filmes obrigatórios para esta temporada. Singela mensagem a ser transmitida no melhor do indie recente.

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